Umha respiraçom profunda

Por  Finimondo

“Nom te vás dócil nessa boa noite
Enfurecido, enfadado contra a morte da luz”.
Dylan Thomas

Nom, nom desta vez. O enésimo assassinato dum homem preto por parte da polícia na passada segunda-feira 25 de maio em Minneapolis (Minnesota), no “país mais livre do mundo”, nom passará desapercibido, também nom acabará fazendo números nalgumhas estatísticas. Calcado baixo o peso de três polícias, um deles com o joelho apoiado no pescoço, George Floyd invocou inutilmente a compaixom. As suas últimas palavras forom: “Nom podo respirar, nom podo respirar, fai o favor, senhor, fai o favor, fai o favor, fai o favor, nom podo respirar”. Mas aos cavaleiros que formam o braço armado do estado, de qualquer estado, é inútil pedir-lhes favores. O seu trabalho é nom respirar, pisotear e asfixiar qualquer impulso vital. Alistam-se específicamente para isto, para desfrutar do poder de tirar o alento aos que estam embaixo deles. Estam treinados e pagos específicamente para isto, para prevenir qualquer movimento dos que estam embaixo deles. E entom, se tal petiçom vem dum pobre homem preto e se dirige aos polícias brancos, entom o resultado final quase sempre dá-se por sentado. É tam óbvio que o assassinato pola polícia é um facto quotidiano nos Estados Unidos, considerado quase endémico (segundo algumhas estatísticas, no que vai de 2020 a polícia norte-americana matou ao menos a 400 pessoas). É um facto comprovado, lamentado, criticado, com a mesma disposiçom com a que se metaboliza e se esquece.
Nom, nom desta vez. Nom foi possível. Se a morte de George Floyd provocou moito mais que a habitual controvérsia sobre a “tensom racial” nos Estados Unidos ou o racismo rampante entre os organismos encarregados de fazer cumprir a lei, se provocou a agitaçom mais generalizada no país, deve-se basicamente a duas razons. A primeira é quase trivial: este atroz assassinato foi filmado e o video deu imediatamente a volta ao mundo (tal como ocorreu em 1991 em Los Angeles com a surra a Rodney King). Em frente a essas imagens que rebotan por todas partes, atingidas na cara pola sua brutalidade, nom era possível limitar-se a sacudir a cabeça, jurar, suspirar, apertar os punhos… e resignarse.
Esta é a diferença entre a morte de George Floyd e a de Breonna Taylor, acribilhada a balazos o passado 13 de março no seu apartamento de Louisville (Kentucky) por três agentes de paisano que entrarom no apartamento sem umha ordem judicial, ou a de Mike Ramos, assassinado por um polícia em Austin (Texas) o passado 24 de abril mentres estava num estacionamento no seu carro. Fora da vista, era mais fácil manter os seus assassinatos fora do coraçom. Sim, umha tautologia aterradora. Na sociedade da imagem, é a imagem a que marca a diferença. O passado 23 de fevereiro, mentres fazia footing numha periferia de Brunswick (Georgia), Ahmaud Arbery foi assassinado por um ex-polícia recentemente aposentado e o seu filho, que o perseguirom e o confundirom cum ladrom. Durante mais de dous meses, os dous responsáveis desse assassinato nom forom incomodados até que um video da sua façanha foi publicado o 5 de maio; pai e filho forom presos 48 horas depois. Os homens de ordem podem matar aos que nom tênhem santos no céu, dificilmente seram perseguidos, mas é melhor que prestem atençom a nom ser filmados.
A segunda razom que impediu que o evento das notícias de Minneapolis se arquivasse num triste e ordinário sistema de contabilidade, fazéndoo perturbador, por outra parte, é completamente aleatória. Nom há nada mais que duas gotas de água, mas é só a última em transbordar a pota. Ainda que nom foi diferente doutros que o precederom, o assassinato de George Floyd – este homem ordinário, que acabava de perder o seu trabalho e tratava de sobreviver, no que é tam fácil reconhecer-se a si mesmo – atuou como um catalisador capaz de desencadear umha série de reaçons em corrente que até agora nada pôde parar e que esta a fazer que a situaçom social nos Estados Unidos seja a cada vez mais incandescente.

Entom, que passou? Na noite dessa trágica segunda-feira 25 de maio um video filmado por um transeúnte mostrando os últimos minutos da vida de George Floyd foi publicado em Facebook. Ouvem-se os seus gritos, vê-se o olhar vazio e indiferente do seu verdugo de uniforme. Só tomou umhas poucas horas para que esse video se voltasse moito mais “viral” que o Covid-19, indignando a milhons de pessoas e envergonhando às autoridades locais. O presidente da câmara municipal da cidade, Jacob Frey, membro do DFL (um partido próximo ao Partido Democrata, mas em posiçons ainda mais “liberais”), expressa as suas condolências à família de George Floyd e despede aos quatro polícias implicados na sua morte. Umha medida urgente mais que rara, que fixo necessária a eliminaçom da administraçom de qualquer suspeita de cumplicidade e assim baixar a tensom em vista das manifestaçons de protesto programadas para essa terça-feira 26 de maio. Ao longo do dia, realizaram-se iniciativas em moitas partes da cidade para denunciar o acontecido. A interseçom onde morreu Floyd converte-se num ponto de encontro, um lugar de discussom, e o tráfico interrompe-se várias vezes. As manifestaçons saem de vários distritos da cidade para reunir-se em frente à comisaria do terceiro distrito, à que pertenciam os polícias despedidos, que está rodeada por milhares de manifestantes em crescente ira. A janela da entrada está destroçada, mentres há quem traçam escrituras em volantes e paredes, e quem atiram ovos e pedras ao edifício. Quando alguns manifestantes tentam romper as janelas da comisaria desencadeia-se a reaçom dos polícias de dentro, que repelen a pressom da multitude utilizando gases urticantes. Isto leva a escaramuzas no estacionamento da comisaria cujos veículos quedam danados. Furiosa, a polícia arremete contra os manifestantes inundando-os com gás lacrimógeno e disparando balas de borracha, mas os manifestantes defendem-se e loitam toda a noite (saqueando umha licoreria para repor os seus ânimos). Também durante essa terça-feira outros manifestantes mantenhem umha concentraçom em frente à casa de Derek Chauvin, o agora ex-polícia que no video pressiona o seu joelho no pescoço de George Floyd.

Na manhá da quarta-feira 27 de maio, a notícia do dia em todo o país é a violência utilizada pola polícia de Minneapolis contra os manifestantes. Aqui e lá começarom a organizar-se as primeiras iniciativas de solidariedade. Em Portland (Oregón) o Justice
Center está ocupado, mentres as ruas de Los Angeles estam invadidas por um desfile que bloqueia a autoestrada. Um carro de polícia inviste à multitude de manifestantes, que reagem atacando-o antes de ir à comisaria. A indignaçom geral é tal que o próprio presidente dos Estados Unidos trata de sobreleva-la, lançando ao presidente da câmara municipal de Minneapolis a acusaçom de ser um “extremista de esquerda” que reprime só os protestos.
Mentres, na cidade de Minnesota, levanta-se umha cerca protetora ao redor da comisaria do terceiro distrito, enquanto começam outras manifestaçons e concentraçons de protesto. Ainda que acalma prevalece ao princípio, à medida que passam as horas a ira aumenta, até que se estende sem controlo. A comisaria do terceiro distrito é atacada de novo e, após enfrentar-se à polícia nos telhados, os manifestantes dispersam-se por toda a cidade. Dúzias e dúzias de lojas som saqueadas, edifícios inteiros som incendiados. Um manifestante atrapado dentro dumha joalharia é abatido polo dono.

Na quinta-feira 28 de maio, os Estados Unidos acordam-se conmocionados polo ocorrido. A Garda Nacional é enviada a Minneapolis e os helicópteros da polícia elevam-se sobre a cidade. Se por um lado o presidente da câmara municipal Jacob Frey trata de acalmar aos manifestantes convidando-os a ser “melhores que nós”, por outro lado o promotor Mike Freeman arroja gasolina ao fogo declarando que nom tem intençom de proceder contra os oficiais despedidos (Freeman é conhecido polo seu grande entendimento e a sua mao ligeira contra os polícias de gatilho fácil). Os protestos estendem-se a ambas “cidades gémeas” nas orlas opostas do rio Mississippi, Minneapolis e Saint-Paul, onde milhares e milhares de pessoas tomam as ruas. A polícia e os manifestantes enfrentaram-se desde a tarde. Mas é a noite, é sobretodo a noite a que desata aos alborotadores, que sabem onde reunir-se para loitar. A comisaria do terceiro distrito é atacada de novo e desta vez os manifestantes conseguem penetrá-la. Ante a pressom dumha multitude furiosa, os polícias dam-se conta de que só tenhem umha saída e alegram-se de obedecer umha ordem sem precedentes: abandonam o edifício e fogem nos seus carros. A comisaria está vazia, a graça dos insurgentes. Primeiro é saqueado e devastado, depois é incendiado, de acima a abaixo. Umha fogueira que durará horas, saudada por gritos de alegria numha verdadeira festa de libertaçom. Nom satisfeitos, os manifestantes devastaram, saquearam e incendiaram lojas de todo o tipo: eletrodomésticos, álcool, roupa, restaurantes, telemóveis, supermercados… inclusive alguns bancos e moitas oficinas de correios som incendiadas. Segundo a polícia de Saint-Paul, mais de 170 lojas forom atacadas desde o começo dos distúrbios. Essa mesma noite, alguns condutores de autocarro negarom-se a conduzir os seus veículos para transportar aos polícias ou manifestantes presos, um exemplo de nom colaboraçom que nos dias seguintes estendera-se a outras categorias de trabalhadores.
Não parece exagerado dizer que a noite entre a quinta-feira 28 e na sexta-feira 29 de maio ficará na história. A brutal e hiper-equipada força de segurança do país mais rico e poderoso do planeta, atrincherada numha das suas sedes, foi literalmente atingida por milhares de manifestantes, negros cabreados e enojados, armados com meios improvisados, na sua maioria jovens, sem consciência política, provenientes dos setores mais pobres da populaçom, mas todos unidos polo ódio ao inimigo mais comum, mais óbvio e mais omnipresente: a polícia.
Nom só isso, senom que justo quando o epicentro alcança o seu ponto culminante, a revolta contra a polícia e a sociedade que defende começará a estourar noutros lugares do país. Nessa mesma quinta-feira 28, organizam-se iniciativas solidárias em Portland (Oregón) e Olympia (Washington). Em Phoenix (Arizona), umha manifestaçom selvagem termina cumha chuvia de pedras contra a comisaria local. Em Califórnia, em Oakland, bloqueia-se a entrada dumha autoestrada, em Sacramento bloqueiam-se as estradas com manifestaçons, em Fontana umha concentraçom cerca dumha comisaria transforma-se num bloqueio de estrada antes de terminar com destroços e tirar pedras à câmara municipal. Em Denver (Colorado) umha autoestrada é ocupada e produzem-se confrontos entre a polícia e os manifestantes. Em Columbus (Ohio) as escaramuzas resultam em atos de vandalismo contra o palácio do governador. Também produzem-se confrontos entre manifestantes e a polícia em Louisville (Kentucky) e Nova York.

Na sexta-feira 29 de maio amanhece num país que já nom parece ser o mesmo. Algo está a acontecer, algo imprevisto até há uns dias e que ninguém sabe a onde poderia levar. E os políticos som moi conscientes disso, tanto que quando se acordam ouvem imediatamente o chirrido noturno de Trump, que dum simpatizante só pode converter-se num oponente do protesto. Preocupado polo fim do respeito à propriedade privada, anuncia a mobilizaçom da Guarda Nacional e envia a sua advertência aos insurgentes: “quando comecem os saqueos, começaram os disparos”. Palavras que nom conseguiram o efeito desejado, ao revés, mais que desanimar, excitaram as mentes. O promotor de Minneapolis, abrumado polos acontecimentos, joga-se o as na manga para tentar apagar os distúrbios que se estendem sem controlo. Após ver como se incendia umha comisaria de polícia na sua cidade junto com dúzias doutros edifícios, após que a sua oficina fosse bombardeada por milhares de chamadas telefónicas diárias e mails de protesto, após que a chispa na sua cidade se arraigara noutros lugares da naçom, ordena a detençom imediata de Derek Chauvin por cargos de assassinato em terceiro grau (o primeiro caso dum polícia branco acusado da morte dum cidadam negro na história de Minnesota). Quiçá se a tivesse-se tomado imediatamente, esta medida daria os resultados esperados de desativaçom. Mas após quatro dias de sangue nos olhos, resulta ser completamente inútil. De facto, fai que a situaçom seja algo pior. Porque é óbvio que é um pedaço de teia hipócrita para presumir (junto dos resultados da autópsia de George Floyd, segundo a qual o homem nom morreu de asfixia em absoluto, senom das suas próprias patologias prévias) numha tentativa desesperada de encobrir a vergonha institucional (por outro lado, justo essa manhá a polícia de Minneapolis apresou em direto a umha jornalista da CNN culpada de ter a pel demasiado escura). A tensom nom desaparece, ao revés, está destinada a estoupar de maneira incontrolável em todas partes nessa sexta-feira 29, no primeiro dia do fim de semana. Ao longo dos Estados Unidos há inumeráveis pessoas tomando as ruas para protestar contra a violência policial, desafiando o toque de queda noturno.
Em Minneapolis, estam a levantar-se barricadas nalgumhas interseçons de ruas para bloquear o fluxo de tráfico. É a quarta noite consecutiva de confrontos (ao menos quatro polícias ficarom feridos), saqueos e incêndios (dum banco e lojas). Outra comisaria de polícia é assaltada e devastada, umha pergunta irónica fica na parede: “estás a escuitar-nos agora?”.
Em Washington ocorre o incrível: os manifestantes rodeiam a Casa Branca e tentam assaltá-la. O edifício fecha-se em estado de máxima alerta, o seu famoso inquilino é transladado a um búnker subterrâneo, e o serviço de segurança (formado por agentes do serviço secreto) bota aos manifestantes usando gás lacrimógeno.
Em Atlanta (Georgia) abre-se umha espécie de caça de polícias, atacam-se várias patrulhas policiais. Os carros quedam danados e incendeiam-se. A sede da CNN é branco dos manifestantes, que rompem as janelas.
Em Nova York, produzem-se violentos confrontos nos que ao menos umha dúzia de polícias ficam feridos. Umha das suas camionetas incendeia-se, e registam-se centos de detençons. Entre eles, umha manifestante acusada de tentativa de assassinato contra quatro polícias por lançar um molotov à carrinha na que estavam. O molotov nom estourou e a rapaça foi detida junto da sua irmá, polos mesmos oficiais que forom atacados (um dos quais foi saudado com mordiscos).
Em Los Angeles alguns manifestantes atacam a um polícia, que consegue escapar. Pola noite, o tráfico bloqueia-se no centro da cidade e um Starbucks é saqueado.
Em San José (também em Califórnia) os manifestantes constroem barricadas com cubos de lixo e depois as incendiam, chocam com a polícia e rompem vários escaparates.
Em Portland (Oregón) os manifestantes assaltam a prisom e a comisaria central. Um shopping é saqueado e incendiado.
Também se produzem confrontos e distúrbios em Dallas (Texas), Houston (Texas), Las Vegas (Nevada), Denver (Colorado), Memphis (Tennessee)… Mas é em duas cidades onde ocorre o irreparável, o que contribui a alimentar e estender ainda mais os distúrbios em curso.
Em Oakland, Califórnia, num dia de manifestaçons de protesto. Pola noite, milhares de pessoas invadirom a autoestrada, bloqueando o tráfico. Às 9:45 p.m. a polícia anunciou a proibiçom da manifestaçom. Os manifestantes dispersarom-se por toda a cidade; houvo quem incendiarom os cubos de lixo, quem assaltarom e saquearom lojas, quem irromperom num banco para incendiá-lo, quem fizerom umha visita grosseira a alguns concessionários de automóveis… em frente à câmara municipal pode-se ler as palavras “nom temos nada que perder, só as nossas correntes”. Mas justo após as 9.45 p.m., um carro que passa por adiante do tribunal federal estouram uns disparos que alcançam a dous oficiais da guarda, um dos quais morre. Que a melhor maneira de “deixar de matar a gente negra” é “começar a matar porcos brancos”? Esta notícia só se dá ao dia seguinte e ao princípio as autoridades enfatizam o tom, anunciando que se trata dum ato de “terrorismo interno”. Umhas horas mais tarde, talvez conscientes de que corre o risco de dar um mau exemplo, os investigadores apressam-se a negar que exista algumha conexom com os protestos em curso.
Em cámbio, em Detroit (Michigan) umha manifestaçom de protesto contra a brutalidade policial, que começou pola tarde da maneira mais pacífica, termina com confrontos noturnos entre os manifestantes e as forças policiais. No meio da conmoçom, ao redor das 11.30 p.m., um todoterreo fai alguns disparos. Mas desta vez contra os manifestantes, e um rapaz de 19 anos é assassinado a tiros.

Com tais suposiçons, é inevitável que no sábado 30 de maio seja também um dia de fogo numha naçom na que impôm o toque de queda em ao menos 25 cidades de 16 estados, e a Guarda Nacional se mobiliza nuns dez estados. O Ministério de Defesa ordena ao exército que se prepare para dispersar unidades de polícia militar em todo o país. Durante o dia realizam-se manifestaçons pacíficas (em Heureca, Dês Moines, Tacoma e Genebra, onde a autoestrada está fechada, Santa Rosa, Modesto, Houston, Bloomington, Louisville, Miami, Durham, Montgomery, Atlanta, em frente à casa do governador, Burlington), outras que geram confrontos entre os manifestantes e os organismos encarregados de fazer cumprir a lei (em Salem, Portland, onde o presidente da câmara municipal decretou toques de queda de 8 a 6 da tarde, Salt Lake City, Oakland, Phoenix, Denver, Dallas, Oklahoma City, Columbus, Milwaukee, Tampa, Jacksonville, Little Rock, Boston, Pittsburgh).
No epicentro do levantamento, Minneapolis, o governador Tim Waltz apelou aos manifestantes: “Entendo a ira, mas isto nom se trata da morte de George Floyd, nem das desigualdades, que som reais. Isto é um caos”. As suas palavras nom devem soar moi convincentes, tendo em conta que milhares de manifestantes seguiram desafiando o toque de queda e a Guarda Nacional para ir e arrasar a casa de Derek Chauvin, incendiar bancos, oficinas de correios, restaurantes e umha gasolineira, antes de tentar em vam, lamentávelmente, queimar a comisaria doutro distrito.
Em Washington, outra manifestaçom em frente à Casa Branca, protegida pola Guarda Nacional e -segundo a avoa Bimbominkia de 74 anos que vive ali – por cans moi travessos. Um serviço de ordem público cada vez mais massivo utiliza umha vez mais gás urticante para dispersar à multitude, mas desta vez os manifestantes resistem e alguns deles inclusive conseguem contraatacar cumha roca. Um carro do serviço de segurança estacionado fora queda danado, ao igual que a Fundaçom e Instituto Presidencial Ronald Regam.
Ainda se produzem confrontos violentos em Nova York, cujo registo oficial fala por si mesmo: 350 manifestantes presos (incluída a filha do presidente da câmara municipal, que participava num bloqueio de estrada), 33 oficiais feridos, 47 veículos policiais danados. Um Suv da polícia atropelou umha barricada, ferindo a alguns manifestantes.
Em Seattle (Washington), além dos confrontos com a polícia nos que se incendiarom alguns carros, se produzirom saqueos e fechou-se umha estrada interestatal.
Em Reno (Nevada), a polícia utiliza gás lacrimógeno para desatar a ira dos manifestantes que assaltam e devastam umha comisaria.
Em Las Vegas (Nevada) a polícia é atacada com molotovs mentres os carros som danados e as lojas som saqueadas.
Em Jackson (Flórida) vários polícias quedam feridos durante os confrontos, um deles apunhalado no pescoço.
Em Sacramento (Califórnia) há saqueos e confrontos com a polícia. Pola tarde, moitos manifestantes atacam o cárcere do condado, rompendo as suas janelas.
Em Emeryville (Califórnia) grandes armazéns som saqueados em várias áreas.
Em San Francisco as ruas estam bloqueadas e as lojas som saqueadas. O presidente da câmara municipal chama à Guarda Nacional.
Em Los Angeles estoura um verdadeiro levantamento de massas, com lojas saqueadas em Berverly Hills e em Rodeio Drive ao grito de “Comete aos ricos!“, avions voadores atacados, comisarias incendiadas. Declara-se o estado de emergência e mobilizam-se todas as forças policiais.
Na Mesa (Califórnia) há saqueos e incêndios de bancos.
Um shopping em Scottsdale (Arizona) é saqueado.
Em Austin (Texas) umha autoestrada queda fechada, lojas saqueadas, comisarias destroçadas.
Em San Antonio (Texas), após umha manifestaçom pacífica, a oficina de liberdade condicional é atacada e incendiada.
Em Lincoln (Nebraska), no meio de protestos, bloqueios de estradas, confrontos com a polícia, incendeia-se o edifício de Correios.
Em Madison (Wisconsin) o protesto rematou em confrontos e saqueos.
Em Grand Rapids (Michigan) e Kansas City (Missouri) os manifestantes aquecem o ar com numerosos incêndios.
Em Rockford (Illinois) produzem-se confrontos e saqueos.
Em Chicago, os polícias som atacados com objetos de todo tipo e os seus carros quedam destroçados.
Em Cleveland, Ohio, há distúrbios, saqueos, e moitos dos carros incendiam-se.
Em Charleston (Virgínia Ocidental), Columbia (Carolina do Sul) e Raleigh (Carolina do Norte) as manifestaçons terminam com confrontos e saqueos, alguns dos carros se incendiam.
Em Richmond (Virgínia) moitas lojas som saqueadas, o quartel geral das Daughters of the Confederacy é incendiado. Os monumentos confederados começarom a vandalizar-se, umha celebraçom da escravitude.
Em Ferguson (Missouri), umha comisaria de polícia foi danada e evacuada, após que os seus agentes fossem abrumados polo lançamento de petardos, tijolos, pedras, garrafas.
Em Nashville (Tennessee) os manifestantes, depois de enfrentar-se à polícia, conseguem incendiar o tribunal.
Em Siracusa (Nova York) a estaçom central de polícia é atacada.
Em Filadelfia (Pensilvania), depois de confrontos com a polícia e incêndios aéreos, alguns manifestantes subirom-se à estátua de Frank Rizzo (comissário de polícia em 1968 e mais tarde presidente da câmara municipal da cidade) e incendiarom-na.
Em Indianápolis (Indiana) outro manifestante é assassinado, o terceiro desde o começo dos distúrbios.


No domingo 31 de maio, o protesto contra a polícia fai-se internacional. No Rio de Janeiro há umha grande manifestaçom contra a polícia, que só no ano passado cometeu uns 1800 assassinatos nessa cidade, umha média de 5 por dia. Desafiando as normas antipandémicas, também se organizam várias manifestaçons de protesto em Londres (onde se registam as detençons), Berlim, onde a embaixada dos Estados Unidos queda rodeada de manifestantes, Toronto e Auckland (Nova Zelandia).
Mentres, os distúrbios continuam sem cessar nos Estados Unidos. Numha Minneapolis blindada todo parece proceder com calma, quando um camiom cisterna tenta atropelar à multitude de manifestantes numha ponte. Um ato que felizmente nom causará ningumha lesom (aparte do condutor do veículo, que quase é linchado no ato).
Durante todo o dia em Washington, cerca da Casa Branca, sobretodo no parque em frente a ela, estouram violentos e repetidos confrontos, durante os quais uns cinquenta agentes do serviço de segurança ficam feridos. Incendeia-se o soto da igreja de Saint-John (chamada “Igreja dos Presidentes”), situada à entrada do parque. Umha vez mais dentro do edifício do governo decreta-se um estado de alerta e o Presidente é levado a um búnker. Noutras partes da cidade as manifestaçons respondem-se com gás lacrimógeno e granadas de aturdimiento. A sede da AFL-CIO, a organizaçom sindical mais poderosa do país, é devastada e incendiada. As palavras “o silêncio é cúmplice” ficam na sua parede. Bancos e xoiarias som atacadas. Moitos monumentos som vandalizados.
Em Los Angeles, a polícia usa gás lacrimógeno contra os manifestantes que bloqueiam umha rua comercial no distrito de Santa Mónica. Moitos edifícios comerciais e lojas som saqueadas. Há mais de 20 cidades em Califórnia onde se estam a produzir saqueos.
Na cidade de Nova York, milhares de manifestantes invadem as ruas de Manhattan para chegar a Union Square. Os distúrbios com as forças da ordem estam a estourar de novo em Broadway. O saqueo está a levar-se a cabo em cinco bairros da cidade.
Em Boston (Massachusetts) centos de manifestantes enfrentam-se à polícia, danando e incendiando carros. Algumhas lojas som saqueadas.
Em Atlanta (Georgia) a polícia também usa gás lacrimógeno. Anuncia-se que dous polícias som despedidos e outros três suspendidos por “uso excessivo da força” durante as manifestaçons do dia anterior.
Em Filadelfia (Pensilvania) moitos carros de polícia som atacados e destruídos, e algumhas lojas saqueadas.
Pouco depois da meia-noite um manifestante foi assassinado pola Guarda Nacional em Louisville (Kentucky), cidade que durante todo o fim de semana foi escenário de violentos confrontos também porque ainda arde a lembrança da morte de Breonna Taylor. Outros dous manifestantes som assassinados em Davenport (Iowa). O chefe de polícia desta cidade diz que três oficiais também forom emboscados e um deles ficou ferido.

Hoje é segunda-feira, 1 de junho. passou umha semana desde a morte de George Floyd, e toda a opiniom pública americana está de acordo em que se enfrenta a “os piores distúrbios civis desde o assassinato de Martin Luther King”. O qual é umha forma elegante de pôr umha boa cara. De facto, está claro que já nom é a “questom racial” a que aquece os coraçons, como o demonstra nom só o componente multiétnico dos insurgentes (Samantha Shader, a rapaça nova-iorquina presa na sexta-feira pola noite por lançar um molotov à polícia, nom é negra, nem nativa americana, nem sequer latina; é branca, a cor de pele adequado para que o racismo policial a deixe em paz, o que nom lhe impediu arriscar-se hoje à cadeia perpétua por tentar vingar a George Floyd e a todas as demais vítimas dos assassinos uniformados), mas também os mesmos lemas que marcam as manifestaçons em curso. O apelo às Vidas Negras que importam deixou mais e mais espaço para o universal Nom há paz sem justiça e nom podo respirar. Como matons que som, os polícias nom fam mais que defender o mundo dos seus amos. E é este mesmo mundo o que desde Los Angeles até Nova York, passando por Minneapolis, se incendia. Um incêndio que estourou quase naturalmente, cumha rapidez impressionante, que surpreendeu aos bombeiros-recuperadores habituais, deixándoos atónitos ante o facto consumado, sem moitas mais possibilidades de intervir. Quando um ativista negro dos direitos civis defende abertamente o saqueo, quando umha famosa estrela do pop se declara disposta a fazer qualquer cousa para botar ao inquilino da Casa Branca, significa que a clássica reticencia está a diminuir.
Entre as autoridades chamadas “responsáveis”, as mais cuidadosas de nom precipitar a situaçom, já nom sabem que fazer para acalmar as águas (agitadas também pola nova autópsia do cadáver de George Floyd, que indicou como causa real da morte a asfixia causada pola pressom no pescoço). De modo que hoje, nada menos que os bons polícias, como os que em Nova York, Washington, Miami (Flórida) e Santa Cruz (Califórnia) se ajeonlharam em solidariedade com os manifestantes, ou os que em Genesee (Michigan) e Norfolk (Virgínia) se uniram às marchas de protesto. Um espetáculo mediático mais que umha deserçom real, sem dúvida, mas um acontecimento indicativo em qualquer caso e destinado a ser abrumado cedo pola arrogância dum governo que cuspe o fogo com a certeza de poder apaga-lo. Esta manhá o ex presidente da câmara municipal de Nova York, bem como o assessor de segurança de Trump, Rudolph Giuliani, disse: “durante sete dias as multitudes governarom as cidades com os presidentes da câmara municipal mais democráticos, é óbvio que estes presidentes da câmara municipal som incapazes de proteger aos seus cidadás. Dam força aos insurgentes abandonando as comisarias e ordenando à polícia que fique quieta e seja atacada sem ser proceder a fazer detençons” (ainda que há milhares de detidos durante os distúrbios). Umhas horas mais tarde, o seu abrumador superior, cansado de estar encerrado no búnker da Casa Branca durante dias baixo assédio, anunciou que consideraria aos militantes de Antifa (a quem considera os instigadores dos distúrbios) como “terroristas” e instou aos governadores, presidentes da câmara municipal e comisionados a restabelecer a Lei e a Ordem usando a força contra os manifestantes: “Se nom dominades as vossas cidades e estados, aniquilaram-vos… Estamos a ponto de fazer algo em Washington que a gente nunca viu antes”.
Invocando a Lei de Insurrección de 1807, quer enviar ao exército às ruas. Ocorreu já em 1967 ou 1992, após os distúrbios em Detroit e Los Angeles. Mas esses distúrbios limitaram-se a umha soa área, aqui está toda a naçom que deve ser patrulhada militarmente. Que pode causar essa decisom? Revolverá a paz social ou iniciará umha guerra civil? Nom é tratar um protesto generalizado cheo de distúrbios como umha insurreçom a melhor maneira de materializar o que se evocou? E nom esqueçamos que, hipocritamente, é a própria Declaraçom de Independência dos Estados Unidos a que proclama o direito, e inclusive o dever, de derrocar um governo despótico.
Tanto mais porque -se os políticos e os multimilionários ainda nom se deram conta- já está a ocorrer em todos os Estados Unidos algo que nunca antes se vira na Casa Branca em Washington: a difusom da consciência de que baixo o peso da autoridade nom se pode nem se mover-se nem respirar, isto é, viver.
Tanto mais porque -se os políticos e os multimilionários ainda nom se derom conta- já está a ocorrer em todos os Estados Unidos algo que a Casa Branca em Washington nunca tinha visto antes: a difusão da consciência de que baixo o peso da autoridade um não pode se mover nem respirar, nem viver. Que é inútil pedir favores aos que mantenhem o pé no pescoço, mais ou menos pressionado. Que quando a única opçom que deixa esta sociedade é entre obedecer em silêncio ou ser aplastado, o único que fica é recusar ambas alternativas e armar esta consciência com a revolta. Desafiando os toques de queda e a aplicaçom da lei, o gás lacrimogeno e as balas. Desafiando o medo e a resignaçom, um sentido de impotência e realismo. Tomar as ruas e loitar, com fúria, sem moderaçom, descobrindo que nom se está só em absoluto, que nom se é débil em absoluto, e que é possível, sempre é possível reverter a situaçom.
Começa a respirar, da única maneira possível: nom deixando respirar à autoridade.

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